02.27.14

Robocop 2014: uma análise

Posted in Cinema & TV at 10:26 pm by BP

Todo mundo falando do novo Robocop, então vou deixar aqui minha opinião que ninguém pediu (porém sendo fã, não consigo me segurar). Saiba mais clicando abaixo.

Robocop foi um filme bacana pro Padilha estrear em Hollywood, mas não é marcante como o filme de Verhoeven em 1987 (que curiosamente também teve sua estreia em Hollywood através do filme original). Robocop 2014 mantém uma boa crítica social, mas muito da ironia (e do absurdo) perdeu-se nesses quase 30 anos e nessa queda de “Rated R” pra “PG13“. Tecnicamente falando eu acho que ficou devendo em relação ao original especialmente no que diz respeito a:

Design Visual: o Robô original, de forma geral, é muito mais memorável.  Iron Man + Batman = Robocop 2014. Gostei muito da armadura cinza e prata, porém ela é deixada de lado antes mesmo dele entrar em ação. No final, acabamos com um design medíocre e sem personalidade. O novo ED-209 parece um transformer genérico: não há caracterização no seu design ou comportamento. O filme de 1987 seguia a filosofia do design-over-substance, uma crítica aos carros americanos da época, grandes e desajeitados. Isso se refletia não somente no antagonista ED-209, que não sabia descer escadas, mas no próprio universo do filme.

Design de Som: você consegue se lembrar de algum som memorável no novo filme? Algo que tenha impactado e que fosse inédito? Até hoje as passadas do Robocop clássico ecoam na minha cabeça, bem como o som de sua arma sendo genialmente revelado no estande de tiro (ouça aqui). A voz sintetizada e o rugir do ED-209, intimando o Mr. Kinney antes alvejá-lo.  Não que seja necessário para determinar o sucesso de um filme, mas este é um departamento onde o Robocop 1987 marcou e foi reconhecido, sendo indicado ao Oscar e recebendo uma premiação especial no mesmo evento.

Trilha Sonora: o que dizer quando a melhor parte da trilha sonora do novo filme ocorre no momento em que é tocado uma nova versão do tema original? Basil Poledouris é insubstituível, e o único momento do novo filme em que me recordo da música é quando Poledouris foi “homenageado”. Fica a dica: ouça a trilha do original. A obra de Poledouris é tão importante para definir o Robocop (1987) quanto foi para definir o Conan.

Desenvolvimento dos Personagens: sim, foi bacana ver como o Murphy lidar com o trauma de saber que está dentro de um corpo que não é seu. Ainda assim o protagonista não se desenvolve muito, sendo que o pouco que consegue é bruscamente interrompido pelo “modo zumbi”, e quando o personagem se liberta disso é tarde demais pra você se importar. No filme de Verhoeven o princípio é outro: Robocop não sabe o que ele é, e aos poucos vai tomando consciência através de fatos chaves meticulosamente inseridos na trama (como quando ele é indagado por um de seus assassinos, que diz “Não pode ser. Nós matamos você!”), passando a questionar aquilo que faz e buscando suas próprias respostas. Verhoeven desenvolve essa busca pela humanidade de forma genial: a voz robotizada vai se perdendo no decorrer do filme (a maioria das pessoas não nota), e em sua luta contra o ED-209, onde o Robocop enfrenta sua primeira ameaça, seu visor quebra revelando o olhar humano e assustado. Ainda há um homem por trás da lata! Nenhuma dessas surpresas nos aguarda no novo filme, uma vez que já no começo sabemos o que é o Robocop e Alex sabe sua situação. Os vilões do antigo filme também são mais memoráveis, e a ideia do ganância presente dentro de empresas e do capitalismo selvagem continua atual.

Não é que Robocop 2014 seja ruim. Apenas não é assim, tão único quanto o material de referência. Em 1987 Robocop era um filme categoria B que acabou tendo retorno de blockbuster. Robocop 2014, por outro lado, tornou-se um blockbuster já em sua concepção, e talvez por isso mesmo tenha dificuldade em se encontrar: é difícil ser profundo quando se pretende agradar a público tão grande. Ambos os filmes acabam sendo reflexos de suas épocas, onde na década de 1980 havia mais liberdade criativa e talvez os riscos de fazer algo diferente fossem menores. A questão que encerra tudo isso é: Robocop realmente precisava de um remake?

Se você leu até aqui, obrigado pela sua cooperação. Boa noite.

[Addendum]: Para não correr o risco de parecer imparcial e extremamente conservador, houveram coisas que gostei no novo filme. A atuação de Samuel L. Jackson é excelente, alguns diálogos entre os demais personagens são muito bem amarrados. Certamente o adicionarei a minha coleção.

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